A VISÃO ESTÉTICA DA HISTÓRIA DO BANDEIRISMO

EM O SUMIDOURO DE JORGE ANDRADE

 
Rosemari Bendlin Calzavara – UNOPAR/Londrina

 

 

Jorge Andrade (1922-1984) representa, na literatura brasileira, um expoente do texto dramático contemporâneo. Escrita nos anos 50 e 60, é uma produção aberta, comprometida com um entendimento liberal e humanista do real, o qual se reveste de plena segurança interna.

            A obra cíclica Marta, a árvore e o relógio configura um painel histórico de quatrocentos anos de ascensão e queda da aristocracia rural brasileira, particularmente no que se refere à região de São Paulo e Minas Gerais. Neste volume estão reunidas as peças As confrarias, Pedreira das Almas, A moratória, O telescópio, Vereda da salvação, Senhora da Boca do Lixo, A escada, Os ossos do barão, Rasto atrás e O Sumidouro; bem como uma coletânea de textos intitulada “Panorama do ciclo”. Fazem parte dessa coletânea textos documentais sobre a vida de Jorge Andrade e textos críticos, que analisam e comentam sua obra.

            Finalizada em 1969, O Sumidouro é a peça conclusiva do ciclo Marta, a árvore e o relógio e a de mais longa elaboração. Faz a interpretação estética da vida do bandeirante Fernão Dias e de seu filho mameluco José Dias, bem como aponta para questionamentos acerca das descobertas de ouro, prata e pedras preciosas e o uso que a Europa fez do Brasil no século XVIII.

            Na busca de fontes de informação, Jorge Andrade deparou-se com a memória familiar e com a memória coletiva e recebeu a colaboração de amigos e pesquisadores. Dessa maneira, buscou a fonte de suas referências em historiadores como Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior, Gilberto Freyre, Eduardo Canabrava e outros, como o próprio autor afirma em seu livro autobiográfico Labirinto (Andrade, 1978) inclusive utilizando em sua peça expressões pertinentes apenas ao mundo daqueles que conhecem a fundo a história, não como leigos, mas como estudiosos da mesma.

            O Sumidouro reconta epicamente a história do Brasil, polarizando as questões da criação textual e teatral. Neste texto de Jorge Andrade temos uma significativa construção textual, tendo em vista que uma peça mostra como a outra está sendo construída e como o seu autor se debate no processo de criação textual na busca de um fim para a sua peça.

            As duas peças, a que decorre no plano temporal do presente e a que decorre no plano temporal da passado histórico, se entrelaçam continuamente.

            Para efeitos de análise utilizaremos como referência as expressões peça emoldurada e peça-moldura. Esta nomeação tomamos por empréstimo do texto “Visão do ciclo” de Anatol Rosenfeld (1986: 614).

            A peça emoldurada apresenta a ação fundamental, a ação maior da peça, ou seja, o drama de Fernão Dias na incessante busca das esmeraldas e seus conflitos políticos, que se refletem no âmbito familiar. Esta peça tem como moldura um pequeno enredo atual, que se desenrola no escritório do dramaturgo Vicente. A peça-moldura mostra [HMA1] os problemas particulares desse dramaturgo, que não encontra aceitação dos produtores teatrais e dos críticos para seu trabalho, é muito questionado por sua esposa, Lavínia, quanto ao seu intenso envolvimento com a escrita literária e, para completar o quadro, é chamado de alienado pela empregada da casa, Marta. A empregada é a que mais o incomoda pois diz coisas estranhas como: “Pra que serve escrever? Há muita gente passando fome por aí... e ninguém come livros[HMA2] ” (Andrade, 1986: 532 – as próximas referências ao texto da peça O Sumidouro serão indicadas apenas pelo número da página).

Tanto a peça-moldura quanto a peça emoldurada refletem a angústia do dramaturgo, que tem uma visão crítica da história dos bandeirantes, mas que genealogicamente está vinculado a ela.

            Vicente debate-se nesta tempestade de pressões e, enfurecido, quer construir e finalizar um texto teatral que seja suficientemente esclarecedor dos fatos históricos que vêm continuamente sendo ensinados de forma errônea ao seu filho Martiniano, no colégio, e que particularmente influenciaram a sua vida.

Quanto à organização de O Sumidouro,ela se reveste de procedimentos típicos do teatro épico de Bertolt Brecht. Ela não é uma peça que transcorra de forma linear. Tem uma personagem, o próprio dramaturgo Vicente, que funciona como um narrador, transitando entre a peça-moldura e a peça emoldurada e, sobretudo, organizando, comentando e interpretando os episódios desta última, a qual significativamente começa in ultima res (Silva, 1983: 751-752). Utiliza-se de recursos cênicos externos ao corpo do texto como retratos, fotografias, slides e filmes, os quais comentam a ação em lugar de simplesmente ilustrá-la.

Com esses procedimentos, mais próprios do gênero épico do que do gênero dramático, Jorge Andrade propõe uma reflexão crítica sobre a história do país e do mundo no que se refere ao processo de colonização e formação da nação brasileira.

A minha análise de O Sumidouro, portanto, vai concentrar-se nos diversos procedimentos épicos através dos quais a peça se constrói, a fim de tentar apontar a sua significação para a leitura do passado histórico (peça emoldurada) em função dos problemas e perspectivas do presente (peça-moldura).

A peça O Sumidouro, em sua indicação da montagem do cenário, aponta para uma composição que explorará cenas e lugares diferenciados, pois no mesmo espaço estão árvores, ruas, palácios, colunas, rios, mesa de trabalho, papéis e livros, fotos na parede, estampas de bandeirantes, estantes de livros (531).            Interessante é observar que os lugares imprecisos estão inseridos entre a mesa de trabalho do dramaturgo, que está à esquerda do palco, e a estante de livros, que está à direita. Este cenário já nos mostra uma possibilidade diferenciada da peça tendo em vista que ela cenicamente aponta para espaços que sugerem multiplicidade espacial e temporal.

            O que se destaca nesse momento, na peça-moldura, é o escritório do dramaturgo e a forma como ele, Vicente, se insere no mesmo e como ele se [HMA3] relaciona com as outras personagens em função deste espaço, que não é só material mas é criacional, pois o dramaturgo vai projetando neste espaço a sua produção textual dramática.

            Vicente vai submeter a história a um crivo moderno, ele vai rediscutir o papel do bandeirante e sua heroicidade, assim como vai abordar a questão do mameluco José Dias e o seu papel histórico na busca das esmeraldas.

            Ainda em relação ao cenário, na parede do escritório, estão colocadas estampas de bandeirantes e fotos de dramaturgos. As estampas dos bandeirantes são reproduções de pintores célebres. As fotos de Tchekov e Eugene O’Neill são maiores do que as Arthur Miller e Bertolt Brecht.

            Observamos que a relação entre as gravuras dos bandeirantes e as fotos dos dramaturgos é significativa tendo em vista que tanto Tchekov quanto O’Neill, Miller e Brecht têm em comum a escrita de peças que retratam o homem em seus conflitos pessoais e sociais. As personagens de Eugene O’Neill procuram um sentido para a vida, seja no amor, seja na religião ou nas ilusões. Em geral, elas se desapontam, mas apesar de tudo existe nessas personagens um certo heroísmo digno de admiração, pois elas persistem em viver uma vida sem esperança.

            Do mesmo modo, as personagens de Tchekov consideram a existência difícil e sem sentido já que fracassam em compreender os outros em sua busca de objetivo na vida.

            Arthur Miller também segue a linha do teatro realista que discute o conflito entre o indivíduo e a sociedade e estabelece um código moral e social. Assim, na peça A morte do caixeiro viajante, grande parte da ação é vista através da mente de Loman, tal como, em O Sumidouro, a peça emoldurada é projetada pela mente criadora do dramaturgo Vicente.

            O dramaturgo alemão Bertolt Brecht propõe um teatro que analise os males da sociedade através de técnicas inovadoras, em que a ação é condensada e os diálogos são mesclados pela narração. A proposta de Brecht era que o teatro levasse o público a pensar criticamente e que pudesse relacionar o que via no palco com a condição da vida real.

            A partir dessas informações podemos compreender melhor a montagem do cenário e a proposta de Jorge Andrade em construir um texto que foge do tradicional, tanto na elaboração quanto na sua representação. Assim, as gravuras e fotos que fazem parte do cenário fixo da peça têm uma significação extrema na interpretação da mesma. Elas dialogam continuamente com o propósito inicial de Jorge Andrade de fazer um teatro crítico, cujo pano de fundo é a revisão da história do Brasil, mais particularmente no que se refere ao bandeirismo paulista, além de especificarem a intenção de uma escrita teatral segundo a perspectiva do teatro brechtiano.

            A peça moldura acontece sempre no escritório do dramaturgo Vicente e tem como personagens o próprio dramaturgo, sua esposa, Lavínia, e a empregada, Marta.

            O diálogo inicial entre o dramaturgo Vicente e sua mulher, Lavínia, assume a característica de prólogo da peça emoldurada, pois Vicente, o narrador-autor dessa peça, é quem vai apresentar os episódios e organizá-los dando-lhes uma configuração narrativa.

            No primeiro momento, aparece o dramaturgo desesperado porque perdeu algumas anotações que seriam fundamentais para a peça que está escrevendo.

            Como vemos, o diálogo inicial de Vicente e Lavínia, embora mostre a preocupação do escritor pelos papéis e coisas que está escrevendo, também vai mostrar uma preocupação com a aceitação daquilo que escreve.

            Podemos com isso observar algumas questões fundamentais que serão abordadas na peça emoldurada e que já se delineiam neste prólogo. A primeira é a questão do processo de criação teatral e a sua aceitação em nível familiar e social e a segunda é a configuração histórica da sociedade à qual pertence e as suas marcas[HMA4] . Ou seja, Vicente tem uma preocupação crítica ao escrever o seu texto e justamente a empregada põe em dúvida a validade de sua arma contra a alienação histórica do país.

O dramaturgo quer colocar a palavra certa na hora certa, daí sua angústia da procura do final da peça que está escrevendo. A última frase deverá ser a frase-síntese [HMA5] da peça toda, deverá indicar o sentido da ação humana representada criticamente por sua peça.

 Vicente não se conforma em ser chamado de alienado, justamente ele que busca revelar as verdades sociais e culturais do país através de sua produção textual. Este é um dos pontos de conflito pessoal de Vicente: não ser reconhecido como uma pessoa que transforma o mundo ou que procura transformá-lo através da palavra.

            Uma das questões que mais incomodam o autor-narrador dessa peça é a forma como a história vem sendo ensinada a seus filhos na escola.

            Vicente sente-se particularmente envolvido pela história do Brasil, tendo em vista a ascendência [HMA6] de seus familiares. Daí estar a história dos bandeirantes particularmente entrelaçada em sua história cultural e familiar.

            Sempre pautado pelo espírito crítico, Vicente ironiza a exaltação dos heróis bandeirantes feita por historiadores como Pedro Taques e Taunay e afirma que a elaboração de sua peça revelará o verdadeiro sentido das bandeiras e [HMA7] colocará os bandeirantes como pessoas e não como heróis míticos. Inclusive declama para Lavínia uma estrofe do poema de Olavo Bilac “O caçador de esmeraldas” e comenta de forma irônica: “Este ainda emprega um adjetivo pejorativo: egoísta. (Aponta) Isto parece gente de carne e osso?” (534)

            As expressões de ironia afastam, distanciam o espectador de qualquer envolvimento emocional, propõem um repensar crítico sobre aquilo que está sendo ironizado.

            Vicente é questionado pela mulher sobre o seu empenho e dedicação a um trabalho que lhe consome os dias, inclusive fazendo com que ele se esqueça do cotidiano e da realidade que o cerca: casa, filhos, contas a pagar, etc.

            Em nível pessoal, Vicente debate-se com as raízes da família quatrocentona. Quer olhar para o passado a fim de compreender as ações do presente; por isso, ele procura acabar com os demônios familiares e culturais. Esses demônios culturais estão intimamente ligados aos demônios familiares, ou seja, a configuração racial e formadora do povo brasileiro também se faz presente na configuração familiar do dramaturgo.

Observamos nesta cena como o uso de procedimento épico vai sendo utilizado pelo dramaturgo na construção textual. O jogo tempo/espaço acontece simultaneamente: enquanto Vicente conversa com Lavínia, ele olha para Fernão Dias, e Lavínia percebe esse olhar porque questiona o marido: “Que está olhando?” (534)

Em relação ao processo de criação, mesmo enquanto dialoga com a esposa, Vicente se volta continuamente para a produção textual. Essa vivência é tão intensa que Lavínia já chegara a comentar: “Sei lá se não tem alguma personagem aí, nos espionando” (533). E, de fato, enquanto o dramaturgo conversa, a projeção de sua mente criadora vai tomando forma no palco e sua personagem da peça emoldurada, Fernão Dias, vai ocupando a cena.

            Nesta primeira parte da peça, evidencia-se o drama íntimo do dramaturgo em relação à aceitação e reconhecimento de seu trabalho bem como o seu grande envolvimento nas questões relativas aos motivos históricos, os quais ele procurou conhecer a fundo para poder escrever sem medo de errar.

Na segunda parte de O Sumidouro, na peça-moldura, Lavínia volta ao escritório do dramaturgo com Marta, a empregada. Vicente ainda não havia finalizado seu texto, mas, quando elas entram, ele parece ter dificuldades de sair do mundo interior da criação.

Aos poucos ele retoma o presente e revela a Lavínia que não pensa mais em deixar de escrever, ao que Lavínia responde que não tinha dúvidas a respeito disso e complementa: “Pensa que acreditei que ia deixar de escrever?” (585)

Esta certeza do escritor vem após ele revisar e “vivenciar” o seu texto dramático de forma épica, através da peça emoldurada. Só aí ele consegue exorcizar os demônios culturais e familiares.

Vicente revela a Lavínia que conseguiu libertar-se de sua árvore, ou seja, a sua origem não o incomoda mais. Agora não tem mais vergonha de ser o que é, um escritor.

            Apesar de Lavínia demonstrar que, de certa maneira, já conhecia esta verdade, o fato de a personagem Vicente ter feito esta reflexão e a ter revelado mostra um procedimento épico, tendo em vista que ele é o narrador implícito da peça emoldurada, aquele que conhece e conduz a narrativa, mas que precisou da própria narração para distanciar-se e identificar os problemas que o afligiam na peça-moldura.

            A cena final da peça-moldura apoia-se no final da peça emoldurada. O dramaturgo Vicente escreve a última frase do seu texto e esta frase é a mesma pronunciada por Fernão Dias, na peça emoldurada. Aliás esta frase é o pensamento-síntese de toda a peça: “Procurar...procurar...procurar... que mais poderia ter feito.” (594)

            [HMA8] Como podemos observar através da análise da peça-moldura, ela aponta para a história que servirá de pano de fundo da peça-emoldurada, mas principalmente ela retoma os demônios familiares que são parte compósita dos demônios culturais.

Também aqui, observamos que a maior utilização dos procedimentos épicos fica na ironia do discurso do dramaturgo e da montagem do cenário fixo da peça, a qual, ao colocar estampas de bandeirantes que eram considerados grandes heróis nacionais, ao lado de fotos de dramaturgos nitidamente críticos e com uma linha de pensamento voltada para as questões sociais, mostra ao leitor/espectador uma nova postura em relação ao assunto que estará em cena.

            Na peça-emoldurada, os procedimentos épicos serão intensificados e ampliarão as possibilidades de análise de O Sumidouro, no sentido da reflexão crítica sobre a história de Fernão Dias e do bandeirismo.

            Na peça emoldurada, ou seja, na peça que o dramaturgo Vicente está construindo em seu escritório, podemos ver mais fortemente os procedimentos épicos e como estes procedimentos representam criticamente uma fase da história. A própria maneira pela qual ele constrói o texto e o torna visível ao espectador é algo anti-ilusionista, pois apresenta de forma clara e sem sentimentalismo cenas que mostram um passado encoberto pela história, como é o caso das cenas da corte portuguesa, mais particularmente as que se referem ao rei Afonso VI. Elas só poderiam ser exploradas cenicamente através dos recursos da moderna dramaturgia, mais precisamente através dos procedimentos do teatro épico brechtiano.

            A peça emoldurada começa a delinear-se ainda na peça-moldura. Enquanto Vicente conversa com Lavínia, já temos no palco a presença de Fernão Dias. Essa inserção da peça emoldurada na peça-moldura é um procedimento que reforça o sentido narrativo da peça tendo em vista o diálogo de Vicente e Lavínia funcionar como prólogo da peça emoldurada.

            A ação de Fernão Dias, na peça emoldurada, cresce à medida que a conversa entre Vicente e Lavínia vai tomando um sentido definidor das angústias e buscas do dramaturgo.

            Vicente fala dos feitos heróicos do bandeirante e “Fernão Dias se destaca no meio das árvores” (533), Vicente diz que é preciso ter a verdadeira visão da história e “Fernão Dias se aproxima” (534), Vicente comenta que este trabalho será diferente e “Fernão Dias pára no meio do palco”(534), Vicente “vira-se e olha Fernão Dias”(534) e Lavínia percebe esse olhar. Estas técnicas são significativamente anti-ilusionistas, [HMA9] pois ao mesmo tempo em que o autor-narrador olha para sua personagem durante o processo de criação, da mesma forma ela se materializa no palco como forma narrativa.

            A exteriorização da imaginação é representada cenicamente na peça emoldurada que Vicente vai interiorizando conforme está se desenvolvendo o diálogo com Lavínia.

            Quando Lavínia sai, toma conta do palco a peça emoldurada:

            A peça emoldurada tem início in ultima res. As personagens aparecem para dar notícias a Fernão Dias e este é um momento crucial, pois o bandeirante está bastante debilitado e impõe a todos que procedam a um juramento sobre a veracidade das pedras preciosas.

Este procedimento utilizado para dar início à peça emoldurada mostra um autor-narrador que se distancia emocionalmente da cena para estabelecer uma visão crítica do passado histórico.

            Voltando ao início da peça emoldurada, vamos observar como o próprio Fernão Dias questiona o narrador-autor sobre a escolha de procedimento para dar início à peça.

            Vicente, o narrador implícito, justifica que começa pela morte do bandeirante, pois a morte permite ver e analisar tudo. Ela é o princípio do fim. Também aqui, não só Fernão Dias será questionado, mas o próprio Vicente retomará a revisão de sua procura.

            O diálogo de ambos se constrói de forma incisiva e questionadora. É como se ambos se preparassem para duelar, e este duelo pode levar a verdades reveladoras para ambos.

            Dessa maneira o espectador é levado a um conhecimento e a uma tomada de decisão. Ele deve ser um observador que está ciente da história que está sendo narrada no palco e será convidado a tomar posição frente aos fatos apresentados: concordar com a história que era ensinada na escola ao filho de Vicente, ou descer às profundezas do Sumidouro, na Serra de Sabarabuçu e conhecer as verdades.

            A história não pode ser mudada, mas pode ser interpretada, como diz Vicente a Fernão Dias. (537)

            Uma das funções do teatro épico é discutir o mundo de forma crítica. Para tanto, o texto dramático oferece ao espectador informações que ele não possuía, bem como acrescenta dados ao conhecimento já adquirido.

            Desse modo, Vicente, como narrador implícito, terá uma participação fundamental nesse aspecto, e a peça emoldurada seguirá com esse cicerone da personagem Fernão Dias, apresentando-lhe cenas da corte portuguesa, da Santa Sé, da floresta e da própria casa do bandeirante.

            Estas cenas relacionam-se com o início da peça in ultima res como uma forma de fazer o bandeirante ver lucidamente, por expediente artístico, aquilo que não pôde ou não quis ver na realidade histórica da sua vida. Ele foi um joguete nas mãos dos poderosos da corte portuguesa e da Igreja romana. Os reis a quem serviu não mereciam a sua dedicação.

            A história toda é relatada através de fatos que são encenados continuamente. Intercalam-se cenas que ocorrem em Portugal com cenas que acontecem na mata e cenas no escritório entre o dramaturgo e sua personagem.

A procura do dramaturgo se depara com a procura do bandeirante. Revestidos do espírito de busca partem pelos caminhos da história ao encontro de suas verdades particulares, ou seja, reconhecer as diferenças formadoras da classe à qual pertenciam e saber conviver com elas, sem as mascarar nem exaltar.

                O palco, isto é, o escritório onde Vicente escreve a peça, reflete o presente desta classe e como ela vive o seu passado. A partir da elaboração cênica do momento do passado, o autor-narrador presentifica o passado histórico a fim de o rever criticamente.

            Esteticamente, Jorge Andrade opta por uma construção textual que imprime marcas histórico-críticas numa perspectiva do distanciamento brechtiano.

            O dramaturgo não é um historiador, não relata o que acredita haver acontecido, mas faz com que aconteça novamente perante os nossos olhos aquilo que aconteceu na história e que ele artisticamente reinterpretou. Daí, a ambigüidade da construção da sua obra: uso constante de procedimentos épicos numa composição dramática. Ou seja, um drama épico, no fundo oscilando entre o envolvimento emocional, próprio do teatro dramático, e o distanciamento crítico, próprio do teatro épico.

            A história do bandeirante Fernão Dias, aliada à história do filho mameluco José Dias, se entrelaça com a história do dramaturgo Vicente na medida em que são responsáveis pelas indagações do presente. Se as motivações opostas de Fernão Dias e José Dias são igualmente sinceras, qual dos dois merece maior admiração? Se os dois explicam a contradição própria da identidade nacional brasileira e o próprio modo de ser contraditório de um dramaturgo brasileiro moderno como Vicente, que caminho se pode vislumbrar para o futuro nacional?[HMA10] Se Se

            A peça O Sumidouro é feita sobre um tema histórico que poderia ter recebido um tratamento trágico tendo em vista que é protagonizada por alguém, Fernão Dias, que tinha postura de herói e morreu altivamente, para manter sua dignidade de homem que respeita e cumpre a sua palavra, de homem que jamais abdica do grande objetivo a que se propôs.

Em O Sumidouro temos um drama moderno que enfatiza mais a ação que a contemplação. É um drama que discute a realidade social do Brasil no que se refere às estruturas da colonização e às relações com um dramaturgo que procura recontar esse episódio, mas que também se sente parte desse processo por questões de sua origem familiar.

Quanto aos aspectos estruturais da peça, como já vimos anteriormente, ela tem uma configuração épica, pois rompe com a linearidade e enfatiza as vivências do tempo interior, principalmente no que se refere ao narrador-autor, Vicente, que está em seu escritório construindo uma peça que veremos através da peça emoldurada.

             O desfecho da peça tem importância significativa, pois mostra o fracasso e a morte de Fernão Dias, mas é relativizado pelo processo reflexivo a que é submetido, principalmente porque é conhecido desde o princípio da peça. Além disso, o desfecho não é trágico, pois o herói Fernão Dias se recusa a aceitar lucidamente a sua derrota e a transforma em vitória, através do delírio, da ilusão, que sintomaticamente apela para o ato religioso, mágico, do juramento.

Embora a conclusão da escrita da peça tenha representado um alívio para o dramaturgo Vicente em relação ao seu passado familiar e ao passado nacional, o que se configuraria como o efeito de catarse próprio do subgênero trágico, a verdade é que, em O Sumidouro, predomina a atitude questionadora, de distanciamento crítico, graças aos diferentes procedimentos épicos utilizados e que aqui foram minuciosamente descritos e analisados.

O Sumidouro faz nova luz sobre o episódio histórico do bandeirismo, situando-o no complexo jogo de relações políticas, religiosas e econômicas da época e no processo que a história nacional viria a seguir. Discute o papel do grande bandeirante Fernão Dias, tão engrandecido pela ideologia das classes dominantes paulistas, particularmente no século XX, de modo a restituir-lhe a sua contradição básica de grande homem, que cometeu erros sérios em nome de princípios parcialmente válidos. E reabilita a figura histórica do mameluco José Dias como representação da dualidade constitutiva da identidade nacional brasileira, dividida entre os apelos da natureza e da civilização, entre os valores do colonizador e do colonizado.

Assim, a peça de Jorge Andrade não renega o passado, mas busca entendê-lo, de maneira não só a libertar-se do seu peso, mas a utilizá-lo conscientemente na construção do futuro. É por isso que a frase-síntese da chamada peça-emoldurada, juntando o sentido da vida do dramaturgo Vicente ao da sua personagem Fernão Dias, tanto martela na idéia de que é preciso procurar, uma atividade essencialmente questionadora, voltada resolutamente para o futuro, mesmo quando se exerce sobre a memória do passado familiar e nacional: “Procurar... procurar... procurar... que mais poderia ter feito?”

            Ao recriar o mundo de O Sumidouro, optando por recursos técnico-formais próprios do teatro épico, Jorge Andrade estava assumindo uma atitude radical e corajosa frente ao mundo em que vivia, bem de acordo com o que Brecht afirmou:

 

O teatro épico é a tentativa mais profunda e mais ampla no sentido de constituir um teatro moderno, e tem que superar todas as imensas dificuldades que têm que ser superadas por todas as forças vivas nos terrenos da política, da filosofia, da ciência e da arte. (Brecht, 1967: 103)

 

            No texto O Sumidouro, há uma consciência do fluxo do tempo e uma noção de mudança significativos. Temporalidade e dinâmica são fundamentos da idéia de história. Essas categorias são essenciais quando o propósito é refletir sobre a história. No caso de O Sumidouro, esta reflexão foi bastante significativa tendo em vista a falta de êxito nos propósitos nacionais, representados pela figura de Fernão Dias, ou populares, na figura de José Dias, e até mesmo pela figura do dramaturgo Vicente que num arroubo de desafio exclama “Podem me chamar de nacionalista”. (Andrade, 1986: 544)

            Francisco Iglesias em artigo no jornal O Estado de São Paulo de 7/3/71, diz que “O Sumidouro é a angústia da criação artística (...) é a dialética da procura”, esta dialética está presente tanto em Vicente quanto em Fernão Dias. Vicente sofre para escrever uma peça que revele as verdades históricas e Fernão Dias, a personagem principal dessa peça, é retratado na constante busca das pedras verdes. Desse modo a personagem criada pelo dramaturgo quer devassar serras, descobrir riquezas para construir uma nação e, de outro lado, está o escritor querendo exprimir-se, achar a fórmula exata de comunicação que revele a verdadeira história dessa nação.

            A procura, a constante procura é o que move os dois.

            A peça reveste-se de forte acento político: os desmandos da Coroa portuguesa e do clero; a atuação do bandeirante Fernão Dias, que agia em nome da Coroa, mas não tinha consciência das conseqüências de suas ações; e o sentimento nacionalista nascendo no povo brasileiro através da conspiração de José Dias (aquele que tinha o rosto de cada um – o rosto de todos).

            O dramaturgo aponta o caráter nacionalista da conspiração de José Dias, que até então fora ignorado pela história oficial. Do mesmo modo, o bandeirante perde o endeusamento conferido pelos cronistas tradicionais como Taunay e Pedro Taques, entre outros, e pelo poeta parnasiano Olavo Bilac. Jorge Andrade resgata a humanidade do herói e apresenta-o como homem comum torturado pela procura.

            Esta releitura histórica é feita por uma forma dramática com fortes características épicas. Uma espécie de peça-moldura mostra, de modo abertamente anti-ilusionista, como o dramaturgo, representado ficcionalmente por Vicente, vai construindo a peça que se destina a reinterpretar os papéis históricos de Fernão Dias, o bandeirante, e de José Dias, o mameluco, seu filho. O dramaturgo, contra as leis da verossimilhança dramática, chama Fernão Dias do seu remoto passado para fazê-lo rever e julgar a sua vida, os seus objetivos, as suas ações, através da apresentação e comentário de personagens e episódios, situados em espaços diversos e mesmo muito afastados entre si. O dramaturgo, tal como um narrador, dá uma seqüência não linear, mas significativa, de articulação argumentativa, à ação, de modo a esclarecer e criticar a história, ao contrário do que normalmente vinham fazendo os historiadores e os ideólogos e do que possivelmente Fernão Dias teria pensado de verdade no seu tempo. Sintomaticamente, o dramaturgo começa a peça-emoldurada in ultima res, enfatizando assim que a peça pretende uma compreensão retrospectiva do passado aparentemente já conhecido.   

Dessa maneira o espectador é levado a uma ampliação e retificação do conhecimento que já deveria possuir e a uma tomada de decisão. Ele é um observador que está ciente da história que está sendo narrada no palco e é convidado a tomar posição frente aos fatos apresentados. A história não pode ser mudada, mas pode ser interpretada como diz Vicente a Fernão Dias.

            No teatro épico, mais importante que o desfecho é o desenvolvimento da ação no palco. Desse modo podemos constatar que Vicente, desde o início, já tinha se deparado com o final de sua história, mas não tinha isso bem claro para si, enquanto não fez a revisão mental de toda a peça que estava construindo e que de forma emoldurada colocou em cena. No final, as palavras surgiram como conseqüência de toda a ação que se desenvolveu no palco. O que move os homens em suas ações é a constante procura, pois o homem é uma realidade em processo.

            Conhecimento, reconhecimento, reflexão, crítica, tudo isto vai se alternando e sucedendo a cada cena que é apresentada no palco. As cenas apresentadas são significativas por si mesmas, mas, ao mesmo tempo, se articulam num todo narrado.

            Vicente transita entre as duas peças. Na peça-moldura, é personagem junto com Lavínia e Marta e desempenha o papel de um dramaturgo que está escrevendo uma peça e não é compreendido nem pela mulher, nem pela crítica e menos ainda pela empregada. Na peça emoldurada, é o dramaturgo que dialoga com sua personagem mais querida, Fernão Dias, discute com esta personagem o processo da criação textual, apresenta as cenas e personagens que conseqüentemente entrarão em cena e organiza racionalmente o texto que está sendo encenado.

            É igualmente o dramaturgo Vicente que, apesar da sua admiração por Fernão Dias e por José Dias, evita o tom cerradamente trágico que aquele episódio histórico parecia solicitar. A grandeza e dignidade das duas personagens, a morte como conseqüência das suas opções levadas às últimas conseqüências, não conseguem provocar a catarse trágica, porque a construção épica da peça leva o leitor/espectador a desmontar a ideologia que se foi sedimentando sobre a história dos bandeirantes mais do que a identificar-se emocionalmente com uma ou outra das duas personagens principais.

            Outros recursos épicos são utilizados na peça O Sumidouro, como os que se observaram na montagem da cena do escritório de Vicente, onde estão colocadas fotos maiores de Tchekov e Eugene O’Neill e fotos menores de Arthur Miller e Bertolt Brecht. Estas fotos por si sós já propiciam ao espectador uma leitura [HMA11] da linha seguida pelo autor em sua montagem.

            Da mesma maneira as projeções de “slides” e de filmes constituem material plástico concreto que se revestem de veracidade, complementam a cena do palco, esclarecendo-a e criticando-a. A cena projetada sobre Fernão Dias e sobre a platéia faz com que tempo e espaço diferenciados se encontrem em dado momento para que o espectador possa visualizar os acontecimentos e as devidas relações.

            O Sumidouro revela uma história da qual o espectador/leitor se pode considerar um fruto. Conhecedor agora dos fatos e das verdades, pode interferir no presente, pode tomar atitudes conscientes, responsáveis, potencialmente libertadoras.

            Assim, Jorge Andrade, ao escrever a peça O Sumidouro, procurou epicamente desmistificar a ideologia do bandeirismo, no Brasil, e a ideologia do movimento civilizador de Portugal e da Europa, no mundo moderno. E avançou no sentido de um maior esclarecimento das contradições da identidade nacional brasileira e das suas repercussões no plano individual, familiar e coletivo.          

 

 

Referências Bibliográficas

[HMA12] 

ANDRADE, Jorge. Labirinto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

_____. Marta, a árvore e o relógio. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1986.

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 [HMA1]Não é este o melhor, pois remete para uma hoje mal aceita estética da imitação (mímesis).

 [HMA2]Referência bibliográfica? Todas as citações de O Sumidouro devem vir com a indicação de página. Para não precisar de ficar sempre repetindo o sobrenome do autor e a data do livro, você pode fazer aqui uma nota de rodapé, informando ao leitor o modo pelo qual irá citar a peça: apenas pela indicação da página ou páginas entre parênteses.

 [HMA3]“Ele”, “o mesmo”, “ele”: isto fica pouco claro, pois cada pronome pode referir-se ou a “dramaturgo” ou a “escritório”.

 [HMA4]Estas questões vão ser mesmo abordadas na peça emoldurada? O problema é do julgamento da importância do que o dramaturgo escreve para a sociedade e também para a sua família. A afirmação de Marta, traduzida por Vicente, para uma linguagem marxista ou semelhante (“alienado”), é uma provocação que toca fundo em Vicente. Ele tem uma preocupação crítica ao escrever a sua peça e Marta põe em dúvida essa posição crítica, ou mais precisamente, a sua validade social. Parece que Vicente é atacado por Marta com as suas próprias armas (dele).

 [HMA5]Não apenas a síntese, mas a indicação do sentido da ação humana representada criticamente pela sua peça.

 [HMA6]Descendência ou ascendência?

 [HMA7]“Os” quem? O antecedente é “bandeiras”. Mas “bandeiras” também não são “pessoas”. É bom, portanto, refazer a frase.

 [HMA8]Página?

 [HMA9]Fantástico, em teoria literária, é também um termo que deve ser usado com rigor. Não me parece que, aqui, o termo esteja sendo usado assim...

 [HMA10]A conclusão desta parte deveria ser um pouco mais completa e incisiva.

 [HMA11]Você está consciente de todas as implicações do uso desta palavra no contexto da teoria e da prática do teatro épico?

 [HMA12]Em princípio, você apenas deve incluir na Bibliografia as obras que citou no decorrer do seu texto. Há aqui obras que você não citou (de Zima, por exemplo) e talvez nem tivessem grande utilidade para o tema específico do seu trabalho. Mas há outras que você não citou, mas deveria ter aproveitado e citado (obras de Le Goff, Löwith, e Visão do paraíso de Sergio Buarque de Hollanda, por exemplo).

 [HMA13]Dados incompletos (número e data).